A c t u a l i z a ç õ e s  d e   B u d o    J u n h o  2 0 0 2

 Luis Paixão e Roque Oliveira

O Arco e a Barca
A prática do tiro com arco japonês e a simbologia ocidental do arco

A história do Tiro com Arco e o desenvolvimento de Kyudo como disciplina autônoma.
A utilização do artefactos de arremesso data da Pré-História, e não deixamos de ficar admirados quando observamos com alguma minúcia uma ponta de seta em sílex.
Estes objectos arqueológicos têm um detalhe e perfeição comparável ao fascínio que nos provoca um moderno microchip com todas as suas perninhas douradas. Objectos de grande beleza demonstram uma acuidade na sua manufactura, difícil de supor que foram feitos à custa de golpes de pedra, para não dizer à pedrada. E se no paleolítico e no neolítico os archeiros encontraram o seu retrato gravado nas pinturas rupestres, não deixam de ser figurados em todas as civilizações ditas clássicas, como na Egípcia, na Mesopotâmia, na Assíria, na Grega, na Romana, passando pela Chinesa, lembremos a dinastia Ming com o Imperador Hung-Wu, como ainda mais recentemente no mundo Islâmico.
A escolta de archeiros surge assim como círculo específico e diferenciado das outras hostes guerreiras, já porque mantinham o inimigo à distância. Esta situação fez com que alguns exércitos se diferenciassem pelo seu corpo de archeiros.
Nos dias de hoje são os cavaleiros de Abusame, tiro com arco japonês mas a cavalo, quem, com os seus tiros rituais, fazem a abertura do Festival da Primavera no Japão.

O início da prática do Kyudo
A nossa prática do kyudo começou em 1991, quando (e não vamos entrar em grandes detalhes das circunstâncias em que tal ocorreu, embora muito interessantes) nos foi apresentado o Mestre Shirotzugo Yokokojy. Um Japonês que escolhera, há altura, Sesimbra para viver com a sua esposa a merecida reforma. Intrigados com o livro de Herrigel , "A arte cavaleiresca do tiro com arco" e motivados por um aprofundar do conhecimento relativo ao Zen e à prática do tiro com arco, propusemo-nos criar as condições necessárias e suficientes para que o mestre praticasse e nos transmitisse a sua experiência. Iniciamos a preparação de um Dojo, um local gentilmente cedido, com as qualidades dos três S's: Sol, Silêncio e Superfície. Um espaço à sombra de belos pinheiros mansos onde construímos um pequeno estrado de madeira e um espaldão para protecção das flechas.

A prática do Kyudo e o desenvolvimento da concentração, da atenção e da paciência
De início fomos obrigado a alterar uma série de comportamentos inconciliáveis com o Kyudo, Assim os nossos primeiros passos nesta disciplina foram: paralelamente à interiorização dos movimentos do tiro (feitos numa repetição exaustiva dos movimentos, durante mais de 6 meses, com o auxílio de uma fisga de elástico feita pelo Sensei), o desenvolvimento de capacidades mínimas de paciência e entrega ao que nos dispúnhamos então aprender. Hoje estou convencido que a maioria das artes tradicionais, e especialmente as marciais, ajudam efectivamente a desenvolver estas capacidades do ser humano, que tão maltratadas são pela sociedade contemporânea.
A procura de uma renovada eficácia, que não advém do artificialismo técnico ou sofisticação tecnológica ou de qualquer facilitismo mediático, mas pelo contrário de um trabalho, sincero persistente e esclarecido sobre o indivíduo, obriga a um trabalho sincero sobre a concentração, a atenção e a paciência.

Os treinos
Treinar Kyudo é ter lições Zen. De forma persistente e atenta o mestre de Kyudo toma uma atitude correctora, que nos leva a considerar o Kyudo como o Zen de Pé em contraponto com o Zazen, ou Zen sentado.
É de realçar que os treinos começam por um período de exercício, no qual se realiza diversas vezes o mesmo movimento respiratório, o (Tchatayso).
Recordamos, a propósito do Zen, um certo vídeo que o Sensei nos mostrou. A fita nada tinha a ver com o Kyudo, um mestre gordinho, de pêra rala e branca, dispensava algumas considerações em japonês, que não podíamos entender de todo, enquanto um outro, mais novo, fazia exercício de coluna em suaves movimentos ondulatórios, isto tudo acompanhado de uma música de fundo e de belas imagens naturais, de onde pressupúnhamos que o mestre extraía analogias.
Sr. Yokokojy simplesmente repetia, - muito bom, muito bom, - como se para nos encorajar a descodificar as imagens e apreendermos algo, que ele sabia intimamente não nos conseguir transmitir verbalmente.

(continua)

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Editorial Junho 2002
A r t i g o s  J u n h o  2 0 0 2 :

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