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A c t u a l i z a ç õ e s  d e   B u d o    J u n h o  2 0 0 2

 José Manuel Araújo

Comentário sobre as pinturas alegóricas Zen denominadas
A pastorícia do boi

As várias correntes do Budismo, com especial relevância para o Zen, serviram-se da palavra e da imagem como meio para ajudar, de modo intuitivo, a encontrar o caminho para a libertação. Já com esta primeira asserção nos colocamos no meio de uma problemática demasiadamente difícil para o âmbito deste trabalho, pois alguns conceitos são de muito grande complexidade, expressos por vocábulos de muito difícil, senão impossível tradução. Restringir-me-ei, portanto, às referências mínimas indispensáveis.
De qualquer modo, não devemos perder de vista que todas as linguagens são redutoras, tornando-se elas próprias numa realidade distinta daquela a que se pretendem referir. Escreveu Hui-neng (637 - 712), o sexto patriarca do Budismo:
Nada existe de verdadeiro em lado algum, a verdade não pode ser vista em parte alguma. Se disseres que viste a verdade, essa visão não é a verdadeira.(1)

O objectivo desta apresentação não pode, portanto, ser mais que uma chamada de atenção para alguns pontos comuns entre a disciplina física e mental do Zen e a do Bushido, nomeadamente na sua aplicação prática numa sociedade moderna, partindo da série de pinturas, poemas e respectivos comentários conhecidos como as "Dez pinturas sobre a pastorícia do boi", se é que poderemos considerar esta como uma tradução aceitável.
Trata-se de uma alegoria muito espalhada desde o séc. XV na China (dinastia Sung) e no Japão (período Ashikaga, ou Muromachi). O seu valor simbólico foi imediatamente reconhecido, havendo delas várias versões, sendo a mais antiga atribuída a um Mestre Zen da dinastia Sung conhecido no Japão como Kaku-an Shi-en (em chinês, Kuo-an Shih-yan), da escola Rinzai. No entanto, este refere-se a outro Mestre chamado Seikyo (em chinês, Ching-chu), talvez seu contemporâneo, que usou a figura do boi para ilustrar o seu ensino. Estas pinturas teriam sido em número de cinco, havendo uma outra, segundo um comentador da obra de Kaku-an, da autoria de um Mestre chamado Jitoku Ki (em chinês, Tzu-te Hui), que teria conhecimento das primeiras, pois as suas seriam em número de seis.
Numa primeira análise, verificamos a existência de uma dualidade, a do rapaz e a do animal. Aparentemente, esta seria uma alegoria do conceito de Shin, (em chinês Hsin). Segundo o Dr. Suzuki, "esta é uma daquelas palavras que desafiam qualquer tradução. (…) Significa 'mente', 'coração', 'alma', 'espírito', tanto individualmente como em conjunto". Nesse caso, o que estaria em questão não seria mais que um caminho, uma evolução do indivíduo no domínio das suas faculdades intelectuais e emocionais. Num estudo um pouco mais aprofundado, verificamos que esse é apenas um dos aspectos.
Já aqui poderemos encontrar um paralelo imediato com o conceito de 'Do', em japonês, que, como se sabe, é a leitura que corresponde ao conceito de 'Via' do ideograma que designa 'Caminho', na leitura mais prosaica de 'Michi'. Não é, seguramente, apenas a capacidade de aplicar uma técnica com maior ou menor efectividade que distingue um grande mestre de um mestre menos grande, ou de um aluno, ou de outra pessoa qualquer. O caminho que o nosso jovem vai ter que atravessar revelar-se-á, afinal, uma verdadeira Via, uma espécie de peregrinação. (2)
Nas quatro últimas representações, o animal desapareceu. Aliás, nas pinturas VIII e IX, o mesmo acontece ao rapaz. Ao entender a unidade entre o objecto, a sua representação mental e o próprio sujeito, já não necessitará mais de se preocupar com o meio utilizado para atingir a sabedoria, mas dela colherá os frutos. Daí que se diga que essa compreensão é como o ouro separado da escória, sendo-lhe atribuídas as características da Iluminação. Porém, ainda estão presentes os objectos necessários para manter o boi dominado, embora deixados esquecidos a um canto. A compreensão mais profunda da própria vacuidade dos objectos é atingida na pintura VIII. A sua melhor característica é a serenidade profunda que dela emana. Muito importante a ideia várias vezes acentuada de que isto nada tem a ver com a ideia de santidade.


(1) O grande especialista em Budismo Zen, Dr. Suzuki (Daisetz Teitaro Suzuki), nascido em 1870, comentando este texto, atribui-lhe o significado da impossibilidade de divisão do Absoluto em dois, o que vê e o que é visto. (in "Manual of Zen Buddhism, Grove Press, New York, First Evergreen Edition, 1960)

(2) Não é exclusivo da cultura oriental o paralelismo entre o caminhar e o apreender a realidade exterior de modo a aperfeiçoar-se. Em praticamente todas as culturas e religiões encontramos esta noção, que pode tomar a forma da peregrinação ou a do viajar. A ida do crente a Meca, ou a outra cidade santa, não difere no fundamental dos "Anos de peregrinação de Wilhelm Meister", de Goethe.


(continua)

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