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 João Camacho

Simbolismo nas artes marciais

Alguns apontamentos subordinados ao círculo judo e o yoga de pátañjali: A Ascese
Já que falamos de símbolos não posso deixar de referir o símbolo de Pátañjali, a serpente das mil cabeças. Simboliza as mil ciências que Pátañjali dominava. Patañjalí era mestre de Yôga, filósofo, médico, gramático e matemático. Terá escrito, pelo menos, as seguintes obras:

1 - Mahabháshya, o grande comentário à gramática de Pânini.
2 - Charaka, obra de medicina.
3 - Yôga Sútra - sistematização filosófica do Yôga.

O Yôga Sútra transformou o Yôga num dos seis dárshana do Hinduísmo, ou seja, num dos seis sistemas filosóficos ortodoxos. Outras obras anteriores existiam. O Yôga provém da civilização dravídica, ou Indo-Saraswati, anterior às invasões arianas. Após estas continuou a ser transmitido de modo oral. As primeiras referências escritas encontramo-las nos Upanishada. Contudo, por não ter um suporte codificador, no qual fosse sistematicamente definido, ensinado, comentado e os seus passos libertadores indicados, não era considerado um sistema filosófico. O Bhagavad-Guitá já se aproxima de uma certa sistematização, faltando-lhe ainda a definição do que é o Yôga e qual a metodologia a seguir.

Pela primeira vez na história do Yôga, no Yôga-Sútra de Pátañjali, o que surge é a atitude científica, sistemática, experiencial. Surge o questionar próprio da filosofia. Surge a teorização própria dos sistemas filosóficos, por oposição aos textos que até aí tinham sido escritos sobre Yôga, em que o ensinamento era misturado com a fé e as crenças do autor. É um marco na história do Yôga. A codificação de Pátañjali tem um valor histórico inalienável. Com esta codificação o Yôga passou a ter a categoria de dárshana do hinduísmo, alcançou a categoria de sistema filosófico. Dárshana provém da raiz drs, que significa vista, ver ou visão, observar ou compreender. Do que resulta o significado de ponto de vista. São seis os sistemas ortodoxos do hinduísmo (1).
Pátañjali ao codificar o Yôga transformando-o num dos sistemas filosóficos do hinduísmo, alterou-o, até adulterou-o, mas ao mesmo tempo salvou-o. Possibilitou que não se perdesse e chegasse até nós, até aos nossos dias.

O sistema criado por Pátañjali tem oito partes, ou anga, daí que também seja conhecido por ashtanga Yôga - Yôga das oito partes. É uma sistematização de ascese que pretende conduzir o ser humano passo a passo à transcendência. O Budô e as artes que o integram, tendo como objectivo imediato a eficácia em combate é certo que têm como objectivo ulterior o alcançar de um estado de transcendência. O guerreiro procura alcançar numa primeira fase o estado de tatsujin, o super-homem, o homem completo. E se o conseguir procura ser um meijin, um ser de excepção, um mestre que já transcendeu a condição humana. Estas artes também têm o seu caminho ascendente, composto de vários passos ou partes. Em todas as filosofias de desenvolvimento do ser humano, há sempre na base um código ético. Este código existe no Judo e no Yôga de Pátañjali. Desde logo está subjacente às artes marciais japonesas, o Bushidô.


(1) De tendência naturalista são o Yôga e o Sámkhya. São das mais antigas tradições da Índia, pertenciam à cultura dravídica e foram mais tarde incorporados ao hinduísmo. De tendência teísta, recorrendo ao conceito de Deus para a explicação da cosmogénese são o Vêdánta, também designado por Uttara-Mimansa e o Mimansa, também designado por Purva-Mimansa. Os outros dois sistemas são o Nyáya e o Vaishêsikha, considerados sistemas científicos. No entanto estas duas escolas estão quase extintas não possuindo seguidores.


(continua)

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