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Institucionalização e Competição em Shotokai
(Paralelismos 
com a Agricultura Biológica e... o Tanden)


Index:

1 - Pequeno prefácio biográfico

2 - Pensamentos de Murakami Sensei sobre Competição

3 - Pensamentos pessoais sobre institucionalização e competição em Karate

3.1 - Institucionalização profissional - antes um activista, agora um Engenheiro

3.2 - Institucionalização em Karate - 2 anos como burocrata

3.3 - Institucionalização em Karate - Boa ou Má?

3.4 - Alguns factos históricos

3.5 - Competição em Shotokai? - Porque não em Kyudo?

3.6 - Encontrando o Tanden

 


1 - Pequeno prefácio biográfico

Em primeiro lugar gostaria de fazer uma pequena introdução a esta mensagem, especialmente para aqueles de vós que nada sabem (ou pouco sabem) sobre Murakami Sensei e seus discípulos, como eu.

O meu Mestre, para além da sua lendária capacidade técnica, era um extraordinário ser humano, tão duro e exigente como generoso e digno.

Por exemplo, durante os muitos anos em que privei com ele, nunca ouvi uma palavra sua crítica a outros Mestres de Shotokai na Europa, nomeadamente Harada Sensei e Hiruma Sensei.

Além disso, sobretudo após a sua morte, muitas coisas incorrectas foram ditas sobre ele e, para falar verdade, quando leio algumas frases em livros escritos por quem nunca o conheceu pessoalmente, não posso acreditar que personalidades
tão proeminentes possam proferir afirmações do tipo: “Murakami nunca ensinou karate e era um mero professor de educação física”.

Essa é a razão principal pela qual decidi passar uma boa parte dos dois últimos anos da minha vida a fazer viagens e entrevistas a muitos dos seus mais antigos alunos na Europa. O resultado deste trabalho será, com a ajuda de Deus, publicado em breve e espero que possa trazer para o público das Artes Marciais uma mais correcta imagem sobre tão notável e personalidade.

Infelizmente, sobre a sua vida e obra não posso oferecer muito mais, de momento, do que umas poucas palavras numa pequena biografia que poderão consultar  em http://www.cao.pt/hist_bio_ka_murakami.htm

Caso queiram ver uma mini-biografia minha cliquem em http://www.cao.pt/hist_bio_ka_asp.htm#Patrao  e , no mesmo endereço, encontrarão também mini-biografias de muitos outros seguidores portugueses de Murakami Sensei. Mas para o
essencial desta mensagem penso ser suficiente dizer que, em 1981, eu fui nomeado por Murakami Sensei como o seu mais novo Senpai, quando tinha somente 22 anos de idade e desde então continuei a dedicar toda a minha vida como karateca ao meu Mestre até à sua morte em 1987 e mesmo depois.

Dito isto gostaria agora de trazer até vós alguns dos sentimentos que ouvi do meu Mestre em relação à competição em Shotokai e também partilhar convosco a minha opinião pessoal sobre essa matéria.

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2 - Pensamentos de Murakami Sensei sobre Competição

Durante os anos que tive a oportunidade de privar com Murakami Sensei ele sempre expressou um forte sentimento contra a competição desportiva em Karate, pois sentia que isso nada tinha a ver com o espírito de Budo. Disse-nos inúmeras vezes que a competição traz mais males que benefícios a um karateca que queira seguir o Karate-do na direcção que Funakoshi Sensei e
Egami Sensei nos indicaram.

Penso que ele estava numa excelente posição para proferir este tipo de afirmações, pois foi o primeiro Mestre Japonês a ensinar Karate de uma forma continuada na Europa. Durante uma década, a partir do distante ano de 1957, ensinou o que as pessoas agora chamam (incorrectamente, como decerto saberão porque Funakoshi Sensei nunca aceitou a ideia de "estilos" no karate) “Shotokan-ryu” e, durante esse período, foi o professor encarregue de treinar as selecções de várias federações de Karate em França, Inglaterra e Itália.

Depois de 1968, quando decidiu seguir a linha de Egami Sensei, nunca encorajou os seus alunos a participarem nesse tipo de eventos e geralmente recusava treiná-los para participarem em competições desportivas.

Nas raras vezes que aceitou, penso que o fez no sentido que me atrevo a classificar como o sentimento de um pai que concede permissão ao seu filho mais novo para ir a um bar provar algumas cervejas, sabendo que nada de bom virá disso, excepto provavelmente, a experiência dos malefícios do álcool. (As pessoas que conheço que defendem que a competição em Karate é uma coisa maravilhosa decerto não me perdoarão por esta analogia, mas isto é exactamente o que senti das palavras do meu Mestre quando falava sobre as pessoas que lhe pediam permissão para participarem em competições desportivas de Karate).

Mas o ponto que eu gostaria de realçar é o seguinte: em contraste com as suas sessões de treino que eram na realidade muito, muito duras, a sua atitude em relação à competição era firme, mas nunca rígida ou intolerante.

Ao contrário do que muitas pessoas que não o conheceram pessoalmente possam dizer, Murakami Sensei tinha uma mente muito flexível. Talvez possam entender melhor a sua posição perante este tema com outro exemplo:
Em 1979, quando decidiu comemorar o décimo aniversário da introdução do Shotokai em Portugal, uma competição de kata foi organizada e Mestre Murakami aceitou com prazer participar como um membro do júri de avaliação. Devo dizer, contudo, que neste caso todos participaram com um espírito de amizade e companheirismo e posso assegurar-vos que, passado um ano, ninguém se importava com quem tinha ganho (excepto provavelmente, os vencedores).

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3 - Pensamentos pessoais sobre institucionalização e competição em Karate

Deixem-me agora compartilhar convosco alguns pensamentos pessoais sobre institucionalização e competição em Karate.

Comecemos com a institucionalização.

3.1 - Institucionalização profissional - antes um activista, agora um Engenheiro

Eu era ainda um adolescente quando aderi à defesa de causas como a ecologia e a bio-agricultura. Lembro-me de ser um activista lutando por essas causas num suave “estilo Greenpeace”.

Estávamos nos anos setenta e nesses dias as nossas queixas soavam ingénuas e idealísticas às autoridades públicas. Durante muitos anos as coisas não mudaram. Depois, pouco a pouco, especialmente na última década, uma transformação profunda
de mentalidades ocorreu em Portugal: as pessoas começaram a aperceber-se das consequências nefastas de atitudes incorrectas perante o meio ambiente.

Agora, na minha profissão de engenheiro, tenho oportunidade de realizar projectos para os municípios, no domínio do tratamento de águas residuais - o nome técnico é “ETAR's de macrófitas” - que ajudam as pessoas a tornar o ambiente mais limpo e belo (as plantas que tratam as águas residuais também crescem profusamente enquanto se alimentam dos nutrientes
delas).
O mesmo se passa com a agricultura biológica. Há vinte anos atrás, quando fui co-fundador da primeira cooperativa do país, sentia-me como se estivesse a bradar no deserto - a procura de produtos biológicos no mercado era insignificante. 

Mas agora as coisas mudaram. Todos podem encontrar produtos criados biologicamente em qualquer supermercado e os benefícios que advêm do consumo desses produtos, quer em relação no que se refere aos aspectos ambientais quer no campo da 
nutrição humana são reconhecidos pela ciência e pelo público em geral.

E, talvez ainda mais importante, aumentou o controlo em relação à qualidade e ao cuidado com meio ambiente. As pessoas que prejudicam o meio ambiente ou que reclamam ter produzido produtos biológicos, quando de facto os compraram no supermercado para depois os rotular de "biológicos" são reconhecidos como prevaricadores e poderão ser punidos pelas autoridades competentes.

Nos meus tempos de militância pela agricultura biológica, a institucionalização não era necessária pois todos no meio eram ingénuos e honestos. Porém, quando o "negócio bio" se tornou rentável muitas pessoas se envolveram e medidas de controlo  revelaram-se necessárias.

As pessoas em geral, e especialmente as pessoas das artes marciais, têm tendência de criticar a institucionalização, muitos devido à burocracia. Têm razão, a burocracia é uma coisa terrível. É o lado negro da institucionalização.
Mas, para ser franco, como engenheiro sou mais útil à sociedade do que como activista ecológico. As minhas convicções mantiveram-se intactas, e agora a sociedade permite-me pô-las em prática.

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3.2 Institucionalização em Karate - 2 anos como burocrata

Façamos agora um paralelismo com o Karate.

Quando comecei a praticar Karate e Judo, as autoridades não eram muito exigentes a respeito das credenciais dos instrutores. Afinal, éramos apenas uns quantos loucos usando pijamas brancos com uns cintos coloridos. Todos se conheciam pelo primeiro nome portanto poderemos dizer que ocorria uma certa espécie de auto-controlo.

Foi então que chegaram os especialistas esquisitos (geralmente usando roupas negras, para fazer contraste) e começaram a ensinar artes marciais com nomes estranhos. Ganhavam muito dinheiro em pouco tempo numa pequena cidade e depois
mudavam-se para outra.

Há medida que essas situações se tornaram cada vez mais frequentes a institucionalização teve de surgir e depressa o governo impôs que, para ensinar, os instrutores de karate deveriam fazer cursos especiais para obter credenciais oficialmente reconhecidas. Realizaram-se alguns cursos, as autoridades competentes congratularam-se com o facto e a atenção dos dirigentes de karate voltou a focar-se na competição desportiva e nos jogos de poder entre federações que reclamavam para si o reconhecimento governamental.

Desde então mais de vinte anos se passaram e em 1998 aceitei um convite para ser Director do Departamento de Formação na Federação Portuguesa de Karate. A principal razão da minha decisão era o objectivo de reactivar os aspectos educacionais do Karate que foram esquecidos dentro dessa organização por vários anos.

O custo para a minha vida pessoal foi muito alto. O meio era (e creio que ainda é) extremamente stressante. Perdi centenas de horas de treino de dojo e familiares e, a minha saúde, normalmente forte como ferro, deteriorou-se significativamente.
Esse foi o meu limite na incursão no mundo organizacional do karate no meu país.

Mas quando olho para trás e vejo os resultados desse esforço não me arrependo. Durante um período de 2 anos, com a preciosa ajuda técnica do Abel Figueiredo e de outros formadores, ajudei centenas de karatecas a saberem mais sobre disciplinas úteis na sua prática diária como instrutores (ou treinadores) e a terem um certificado que lhes permite ensinar, legalmente (olá Maria Camarão, talvez você seja um desses :- ).

 

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3.3 Institucionalização em Karate - Boa ou Má?

O facto de possuir uma licenciatura em engenharia passada por uma Universidade ou o grau de Instrutor (ou Treinador) passado pelo Departamento de Formação de uma Federação não destruiu a minha crença na Ecologia ou nos benefícios do
Karate-do.

Também penso que não ajudei menos o mundo do karate como burocrata, do que como instrutor experiente de Shotokai.

Estava convencido, e ainda estou, que os conhecimentos sobre a história do karate, anatomia, psicologia e os aspectos pedagógicos da prática, primeiros socorros, recuperação de lesões, etc. não ferem a capacidade pedagógica de um instrutor de Karate-do.

Penso pois que a institucionalização em Karate, por si só, não é boa nem má, tudo depende da nossa atitude.

Falemos agora sobre a competição desportiva em Karate-do, começando com alguns bem conhecidos e documentados factos históricos.

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3.4 Alguns factos históricos

Em 1935 Kichinosuke Saigo, Shigeru Egami, Genshin Hironishi e muitos outros discípulos directos de Funakoshi Sensei criaram o Shotokai (um género de “Fundação Funakoshi”) para juntar fundos para construir o Dojo Shotokan.

Em 1949 os mesmos antigos discípulos e muitos outros seguidores mais recentes de Funakoshi Sensei criaram a Nihon Karate Kyokai (internacionalmente conhecida como “Japan Karate Association - JKA”) com o objectivo principal de reunir o Karate-do como um todo, e evitar a fragmentação do Karate-do no Japão como uma consequência da proliferação de
vários estilos de Karate. 

O pessoal operacional directamente encarregue da NKK (JKA) incluía nomes como Masatoshi Nakayama (instrutor-chefe), Hidetaka Nishiyama (Conselheiro Pedagógico) e homens com reconhecidas habilidades para a gestão como Kimio
Itoh que foi nomeado Director Administrativo. 

Contudo, não muito depois da criação da NKK (JKA), os antigos seguidores de Funakoshi Sensei começaram a discordar com a orientação que o pessoal operacional da NKK (JKA) estavam a dar à organização, começando pelo facto que os instrutores da NKK (JKA) começaram a receber honorários pela instrução de Karate, um facto que não era comum nesses dias e poderia ser
considerado eticamente inaceitável. 

Mas o ponto principal da discórdia veio do facto de que o pessoal operacional da NKK (JKA), nomeadamente Nakayama e Mishiyama cedo começaram a defender que o Karate deveria abraçar a competição, tornando-se um desporto, com árbitros e regras bem definidas que pudessem evitar lesões graves aos praticantes - um facto que se tornava cada vez mais frequente durante combates “amigáveis” que espontaneamente ocorriam entre clubes de karate universitário. Na lista de argumentos a apoiar as suas opiniões, o kendo seria certamente um excelente exemplo.

Entretanto, Funakoshi Sensei estava claramente contra essa ideia e Egami, Hironishi, Obata e muitos outros antigos seguidores de Funakoshi Sensei também sentiram que a competição desportiva estava contra a essência do Karate-do. Como consequência esses mestres começaram a distanciar-se da NKK (JKA).

Funakoshi Sensei, contudo, manteve o seu cargo como fundador e Conselheiro Técnico simbólico da NKK (JKA) e tão forte era a sua influência perante os dirigentes da NKK (JKA), que esta teve de esperar pela morte do Mestre, ocorrida em 26 de Abril de 1957, para organizar, em Junho do mesmo ano, o primeiro Campeonato de Karate-do do Japão.

Estes eventos, e também a decisão da NKK (JKA) de não comparecer ao funeral de Funakoshi Sensei (a família de Funakoshi Sensei decidiu entregar a organização do funeral ao Shotokai) contribuiu para criar uma profunda divisão entre a família Shoto, que se prolongou até aos nossos dias.

Desde então o Shotokai, com Egami Sensei assumindo o papel de líder carismático, continuou a desenvolver a prática de Karate-do como um Budo, enfatizando os aspectos tradicionais da arte e desenvolvendo um ideal de prática que é bem conhecido pelos praticantes de Shotokai; por outro lado, os mestres da NKK (JKA) seguiram um longo e turbulento trajecto que originou uma profusão de ramos de organizações de karate desportivo sendo a World Karate Federation (WKF) e a International Traditional Karate Federation (ITKF) possivelmente as mais conhecidas.

Egami, Hironishi e outros mestres de Shotokai que mantiveram e desenvolveram o Karate-do depois da morte de Mestre Funakoshi, em 1957, fizeram-no intencionalmente, com o objectivo de preservar e desenvolver o Karate-do como um Budo, e não como um desporto. Desde então o Shotokai afirmou-se por si próprio como uma alternativa tradicional ao karate
desportivo.

Penso, pois, que estes factos históricos demonstram claramente que a escolha de se fazer ou não competição desportiva no SHotokai não é algo de superficial e pouco importante. Esse conceito já estava presente antes do corte do cordão
umbilical. E pelo menos historicamente, ele faz parte do núcleo de valores essenciais do Shotokai.
Sendo assim, usando termos técnicos que nos são familiares, penso que o conceito de Budo em Shotokai é tão central e importante como o tanden o é na nossa prática.

Mas deixemos então para trás a análise dos factos históricos e voltemos, uma vez mais, aos paralelismos com
a agricultura biológica e com uma arte tradicional do Budo - o Kyudo - de forma a tornar mais claro o nosso ponto de vista.

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3.5 - Competição em Shotokai? - Porque não em Kyudo?

Assumamos por um momento que alguns agricultores biológicos começam a usar ocasionalmente pesticidas químicos para proteger as suas colheitas das pragas de forma a maximizarem a sua produção.

- Desde que usem esses produtos cautelosamente e de acordo com as instruções dos fabricantes, nada de mal irá acontecer aos consumidores, certo?
- Errado!

Posso assegurar-vos que muitas pessoas que compram produtos biológicos estão bem cientes dos estudos científicos que demonstram que a maioria dos pesticidas químicos, quando correctamente aplicados, parecem ser inofensivos à saúde humana. Mesmo assim, eles preferem consumir produtos cultivadas organicamente, e esse é um direito que têm.

Será correcto então colocar uma etiqueta “bio” num produto que é originado da agricultura convencional?

Penso que não. Penso que atitudes como essa só possam ser consideradas como fraude. É por isso que as autoridades governamentais, assim como as organizações de consumidores, analisam continuamente os produtos que usam as etiquetas “Biológico”, alertando os consumidores quando são detectadas fraudes.

Aproximemo-nos da nossa linha de raciocínio para com as artes marciais com outro exemplo.

Suponhamos que tínhamos aprendido um pouco sobre Kyudo num livro bom e especializado e decidiam praticar. Procurávamos na Internet e descobríamos um dojo nas redondezas. Surpreendentemente, ao entrar na sala de treino, em vez de praticantes vestindo hakama e usando os tradicionais arcos assimétricos japoneses, descobríamos várias pessoas vestindo fatos desportivos da Adidas e usando arcos de precisão, semelhantes aos da disciplina Olímpica do Tiro com Arco.


- Desculpe-me! É este o dojo de Kyudo que está anunciado na Internet? - perguntamos nós ao homem que parecia ser o responsável pela classe.
- Sim! Tiro com arco é tiro com arco, sabe? às segundas e quintas praticamos Kyudo, o tradicional tiro com arco Japonês; às terças e sextas, praticamos tiro com arco desportivo... às quartas misturamos tudo, de modo que poderá usar um hakama enquanto utiliza um arco de tiro olímpico se quiser; notará certamente o belo contraste... é realmente divertido! - responde o responsável do ginásio, com um sorriso radioso.
- A sério?!
- Sim! Nós somos uma organização com uma mente muito aberta, sabe, prestamos atenção aos vários tipos de público e oferecemos um variado leque de opções...

Agora, apelo à vossa franqueza, inscrever-se-iam neste dojo? Eu certamente não o faria.

O facto de ambas as disciplinas usarem um arco e dispararem sobre um alvo não as torna similares. No seu passado histórico possivelmente partilharam uma mesma origem - a caça ou a guerra - mas agora são realmente disciplinas diferentes e sinceramente espero que um desses famosos ginásios americanos não as misture, criando um novo género de salada marcial, acompanhada por algum tipo de música esquisita.

Eu sei, eu sei. Sentem que a caricatura é muito forte. Mas estou só a salientar o meu ponto de ponto de vista. Por favor perdoem-me pelo excesso.
- Estamos então de acordo que um pouquinho de competição no Shotokai não é assim tão mau, certo?
- Errado!

O tiro com arco olímpico é de facto muito belo, mas abraça um conceito desportivo que é na sua essência diferente do do Kyudo - uma disciplina do Budo, que também é muito bela. Misturando as duas, corremos o risco de privar cada uma delas das suas características essenciais.

Similarmente, hoje em dia, algumas disciplinas usam o nome comum de “Karate-do”, ou ainda “Shoto” mas as semelhanças acabam aqui, pois abraçam diferentes filosofias.

E sinceramente penso que oferecendo competição desportiva ao público em geral e dando-lhe o nome de “Shotokai” é, (talvez não intencionalmente) um erro equivalente  a misturar Kyudo com tiro com arco, equivalente ainda a colocar no mercado um
produto etiquetado como “bio” quando foi criado usando ("inofensivos") pesticidas químicos.

Então porque não concordamos todos que a competição desportiva não deveria fazer parte da prática do Shotokai e ... caso encerrado?

Penso que para responder a essa questão teremos de regressar ao conceito de tanden.

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3.6 Encontrando o Tanden

Hoje em dia as pessoas têm uma enorme liberdade de escolha dentro do mundo do Karate.
- Cada um, homem ou mulher, pode seguir um caminho competitivo, que é institucionalizado e bem estruturado por variadíssimas organizações desportivas, com ou sem combates para KO, 

- Cada pessoa pode seguir uma prática não competitiva dentro do Shotokai e de outras organizações de Karate-do,

- Cada um de nós poderá mesmo seguir ambos os caminhos, em diferentes períodos da vida, talvez começando com a competição e mais tarde abraçando outros aspectos do Karate-do.

E isso leva-nos à questão principal:
Porque não oferecer então competição desportiva no Karate-do
Shotokai ? Será que isso não permitiria evitar que as pessoas saíssem para procurar competição lá fora?
- Sim, seria uma boa resposta às exigências do público em geral, e alargaria a nossa oferta, certo?
- Errado!

Bem, há que reconhecer que estamos num impasse.

Eu digo que é errado outros dizem que está certo, essencialmente porque ainda não acordámos acerca do que são os valores essenciais do Shotokai. Simplificando posso dizer que não concordamos acerca do que é e onde está o nosso tanden.

A disciplina moderna das organizações diz: 
- Há que manter o núcleo (os valores essenciais) e estimular o progresso!

Usando termos mais familiares à nossa prática podemos dizer que:
- Mantém o tanden e sê criativo!

Sim, devemos actualizar e redefinir os valores essenciais da nossa filosofia prática para que possamos aceitar a variedade como uma riqueza que estimule o progresso, enquanto que mantemos o nosso tanden estável quanto baste para assegurar a nossa identidade e integridade.

Estou convencido que Egami Sensei e muitos outros Mestres de Shotokai fizeram esse tipo de reflexão em 1957 logo após a morte de Funakoshi Sensei.
A sua resposta foi clara:
- O conceito de competição desportiva abraçado pela NKK (JKA), afectou os seus valores fundamentais. Então tiveram de recusar a caminhar ao lado deles..

Estou convencido, mesmo, que esta atitude está profundamente enraizada no própria génese da divulgação da arte do “Te”  de Okinawa para o público em geral por homens como Itosu, que propôs em 1892 a introdução do Tode no sistema público de educação de Okinawa, ou por Funakoshi, que introduziu na década de 1920 o Okinawa-te nas universidades japonesas, destacando os aspectos educativos da arte e, não os competitivos.

E estou profundamente convencido que o conceito de Budo partilhado por muitas artes marciais antigas como o Kyudo, ou o Iaido, e também pelas mais recentes como o Aikido de Morihei Ueshiba não pode abarcar a competição desportiva.

- Subentende-se então que eu desejo ver a competição desportiva erradicada do Shotokai como uma praga, certo?
- Errado!

Honestamente, hoje, com 45 anos de idade, penso que a atitude primária de simplesmente proibir a competição desportiva no Shotokai seria inconsequente e votada ao fracasso.

Julgo compreender agora mais claramente a atitude mais tolerante de Mestre Murakami na década de 1970, um pouco similar à atitude de outras personalidades contemporâneas que afirmam “aceitar” a competição em vez de a proibirem.

A compreensão sobre as influências negativas da competição desportiva numa arte do Budo como o Karate-do Shotokai, deverá vir de dentro, do coração de cada um ou talvez do Tanden. A mente não é suficiente, penso eu. 

E, para além da reflexão pessoal de cada um, há a discussão pública, o ouvir pontos de vista diferentes, o que talvez constitua um bom método para treinar a humildade e a flexibilidade mental. Essa atitude talvez possa trazer também luz ao nosso espírito.

É por isso que proponho que nos encontremos em Portugal em Outubro de 2003.

Espero sinceramente que o Shotokai International Meeting nos ajude a definir onde está o Tanden do Shotokai.

 

José Patrão

 Texto/Text: © Copyright, José Patrão, 2003

 

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